terça-feira, 26 de agosto de 2008

Leituras

Confesso que desconhecia a obra do escritor moçambicano Mia Couto, apesar de saber dos vários galardões que lhe têm sido atribuídos pela qualidade que empresta à sua escrita, como, por exemplo, o Prémio Vergílio Ferreira, em 1999.
A Feira do Livro, que recentemente decorreu na Figueira da Foz, proporcionou-me a aquisição de dois dos seus livros: "O Fio das Missangas" e "O Outro Pé da Sereia", ambos editados pela CAMINHO.
Em boa hora tomei contacto com a obra deste escritor, de seu nome de baptismo António Emílio Leite Couto, de 55 anos, nascido na cidade da Beira.
Duma beleza sui generis, todas as palavras têm sentido e soam como poemas.
Não resisto a reproduzir aqui uma das páginas de "O Outro Pé da Sereia". Apenas um exemplo:
.
"Há anos que o casal se refugiara nesse além mundo. Mwadia perdera, a conta ao tempo naquele exílio de tudo, naquela desistência de todos. No início, Mwadia acreditou que eles buscassem refúgio para escapar da guerra. Mas não era isso que Zero procurava. O que ele pretendia, nessa tresloucada fuga, era um lugar agreste em que mais ninguém fizesse morada. Quando se instalaram naquele nada, nesse remoto dia, o burriqueiro olhou a paisagem inóspita e declarou:
- Este lugar vai ser baptizado de Antigamente!
- Antigamente? Gosto, é bonito, anuiu a esposa.
Não era, contudo, nome de terra. Era um nome para uma saudade. O apelido nascera dos suspiros, desses lamentos em que Zero Madzero se tinha tornado useiro e vezeiro.
- Antigamente, ai, antigamente!
Antigamente tudo era mais ordenado: o chão chamava e as sombras obedeciam. As rezas subiam, a chuva descia. Foi para reinstalar essa antiga ordem que ele nomeara aquela aridez. O casal estava tão longe de tudo e de todos, que Madzero repetidamente pedia à esposa:
- Não me chame sempre de "marido".
- E como lhe hei-de chamar?
-De vez em quando, me chame por Zero Madzero. Que é para eu não esquecer o meu próprio nome.
Tudo isso acontecia quando Zero ainda suspirava. Depois, ele deixou de se lamentar, poupando fôlego para descansar. Até porque fora por culpa dele que ambos se internaram naquela desolação. A mulher apenas o seguira, em silenciosa fidelidade. Para afastar a solidão, Mwadia, pendurava os lençóis e ficando olhando-os a agitarem-se ao sabor do vento, enfunados como se fossem criaturas de alma. Refazia a lembrança da roupa no estendal da sua casa de infância. Os lençóis brancos eram, às vezes, garças cegas, outras vezes, tontas labaredas de luz."



Sem comentários: