terça-feira, 1 de maio de 2012

1.º de maio na Figueira da Foz


Viver Maio




O mês de Maio e, particularmente o seu alvorecer, sempre despertaram sentimentos profundos, dividindo-se entre manifestações lúdicas e revolucionárias.

No caso de Portugal, por arrastamento de princípios defendidos internacionalmente por trabalhadores insatisfeitos, estes, com maior ou menor calor, consoante a liberdade concedida e por vezes com resultados pouco consentâneos com os seus propósitos face às dificuldades impostas pelo regime então vigente, sempre procuraram manter acesa a chama de Maio, aproveitando a oportunidade para demonstrar o seu sentimento de revolta por condições de trabalho impostas.


           Por outro lado, relacionando a data com o caracter climatérico da época, em que as flores trazem consigo um cenário diferente, colorido e alegre, também os cantares do povo transportaram, ao longo dos tempos, uma sinfonia eivada de tons característicos. É que Maio contém, em si, uma mística sui generis, pejada de tradições, de cheiros e sabores a Primavera.

A respeito desta época especial do calendário, dizia o escritor figueirense Carlos Sombrio em 1935: “A sensibilidade humana entende de tal maneira o encantamento que dimana de Maio, essa alegria misteriosa que perpassando através dos segredos da Natureza e da sua fecundidade amorosamente renovada nessa fase, que esse mês lhe traz uma inquietação estranha – como se sentisse o renascimento de novos sonhos precursores de vibrações desconhecidas”.

É certo que no que diz respeito à Figueira da Foz, a tradição já não é o que era, porque os tempos mudaram e o modus vivendi da juventude transformou-se radicalmente e só alguns empurrões oficiais, ao invés da espontaneidade de outrora, vai fazendo recordar essas manifestações populares e culturais.

E contam os mais antigos que nas manhãs do primeiro de Maio, a mocidade popular, em ranchos multicores, elas com potes floridos, se deslocavam, entoando marchas que enchiam os ares, até à fonte da Várzea – hoje desaparecida – “na sua peregrinação amorosa”, enchendo o coração de votos para uma vida venturosa.

“Beber, no alvor da madrugada do 1.º de Maio, água pura, gostosa e fresca, na fonte milagreira da Várzea de Tavarede – é da tradição que fornece saúde, felicidade, alegria e sorte – para o ano inteiro”, pode ler-se em Aspectos da Figueira da Foz, da autoria de Maurício Pinto e Raimundo Esteves.

Na outra área do reinado do primeiro de Maio, este é o Dia Internacional do Trabalhador, feriado nacional, agora gozado em inteira liberdade, consagração que derivou da revolução de 25 de Abril de 1974. Nesse ano o dealbar do mês de Maio foi celebrado no nosso país como nunca o fora anteriormente e a Figueira da Foz não fugiu à regra, impondo-se com manifestações imponentes dum povo que, pela primeira vez, se sentiu inteiramente liberto de amarras.

Mas como não há bela sem senão, e o mundo político lá vai tentando dar a volta a sentimentos com o seu tom de ingenuidade, o Dia do Trabalhador, comemorado no ano que se seguiu à Revolução, foi marcado por confrontos partidários e incidentes bastante graves.

Manifestações em liberdade e uma tradição que está longe de corresponder aos primórdios da sua instituição, marcarão, certamente, mais uma data que pouco mais será do que o arrancar mais uma folha do calendário.

Mas a Primavera resplandece.



Aníbal José de Matos

Nota: Na foto, manifestações do 1.º de maio de 1974, vendo-se, em primeiro plano, uma figura incontornável da luta pela democracia: Cristina Torres.


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