Viver Maio
O mês de Maio e, particularmente o seu
alvorecer, sempre despertaram sentimentos profundos, dividindo-se entre
manifestações lúdicas e revolucionárias.
No
caso de Portugal, por arrastamento de princípios defendidos internacionalmente
por trabalhadores insatisfeitos, estes, com maior ou menor calor, consoante a
liberdade concedida e por vezes com resultados pouco consentâneos com os seus
propósitos face às dificuldades impostas pelo regime então vigente, sempre
procuraram manter acesa a chama de Maio, aproveitando a oportunidade para
demonstrar o seu sentimento de revolta por condições de trabalho impostas.
Por
outro lado, relacionando a data com o caracter climatérico da época, em que as
flores trazem consigo um cenário diferente, colorido e alegre, também os
cantares do povo transportaram, ao longo dos tempos, uma sinfonia eivada de
tons característicos. É que Maio contém, em si, uma mística sui generis,
pejada de tradições, de cheiros e sabores a Primavera.
A
respeito desta época especial do calendário, dizia o escritor figueirense
Carlos Sombrio em 1935: “A sensibilidade humana entende de tal maneira o
encantamento que dimana de Maio, essa alegria misteriosa que perpassando
através dos segredos da Natureza e da sua fecundidade amorosamente renovada
nessa fase, que esse mês lhe traz uma inquietação estranha – como se sentisse o
renascimento de novos sonhos precursores de vibrações desconhecidas”.
É
certo que no que diz respeito à Figueira da Foz, a tradição já não é o que era,
porque os tempos mudaram e o modus vivendi da juventude transformou-se
radicalmente e só alguns empurrões oficiais, ao invés da espontaneidade de
outrora, vai fazendo recordar essas manifestações populares e culturais.
E
contam os mais antigos que nas manhãs do primeiro de Maio, a mocidade popular,
em ranchos multicores, elas com potes floridos, se deslocavam, entoando marchas
que enchiam os ares, até à fonte da Várzea – hoje desaparecida – “na sua
peregrinação amorosa”, enchendo o coração de votos para uma vida venturosa.
“Beber,
no alvor da madrugada do 1.º de Maio, água pura, gostosa e fresca, na fonte
milagreira da Várzea de Tavarede – é da tradição que fornece saúde, felicidade,
alegria e sorte – para o ano inteiro”, pode ler-se em Aspectos da Figueira
da Foz, da autoria de Maurício Pinto e Raimundo Esteves.
Na
outra área do reinado do primeiro de Maio, este é o Dia Internacional do
Trabalhador, feriado nacional, agora gozado em inteira liberdade, consagração
que derivou da revolução de 25 de Abril de 1974. Nesse ano o dealbar do mês de
Maio foi celebrado no nosso país como nunca o fora anteriormente e a Figueira
da Foz não fugiu à regra, impondo-se com manifestações imponentes dum povo que,
pela primeira vez, se sentiu inteiramente liberto de amarras.
Mas
como não há bela sem senão, e o mundo político lá vai tentando dar a volta a
sentimentos com o seu tom de ingenuidade, o Dia do Trabalhador, comemorado no
ano que se seguiu à Revolução, foi marcado por confrontos partidários e
incidentes bastante graves.
Manifestações
em liberdade e uma tradição que está longe de corresponder aos primórdios da
sua instituição, marcarão, certamente, mais uma data que pouco mais será do que
o arrancar mais uma folha do calendário.
Mas
a Primavera resplandece.
Aníbal José de Matos
Nota: Na foto, manifestações do 1.º de maio de 1974, vendo-se, em primeiro plano, uma figura incontornável da luta pela democracia: Cristina Torres.

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