sábado, 6 de outubro de 2007

Leituras

"A primeira vez que foi ao mar não tinha mais de oito anos!
Mas nunca mais lhe esqueceu; ficou -lhe para todo o sempre gravada na memória - a impressão formidável.

O pai - estava a vê-lo de barbas crespas, a face tostada pelos ventos do largo, o beiço queimado pelo eterno cachimbo - deu-lhe um safanão na enxerga:

- Eh! Ala-arriba!...
E lá foi.

Amanhecia. Ainda piscavam aqui e além as derradeiras estrelas. O mar, de manso, mal se ouvia. Era um ronrono calmo, como de gato quando está contente. Na praia, esfumavam-se as grandes barcaças varadas na areia - antigas lanchas da "arte", que agora dormiam de velhas, tornadas barracas de arrumação de redes. A "companha" reunia. Os homens cheiravam a aguardente. Cuspiam palavrões. Largavam risadas cruas...

Quando chegou ao rés da água, o nascente laivava-se de um tom arroxeado que não tardou em clarear, tingindo-se primeiro dum cinzento esmaecido, depois dum rosa-alaranjado."
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Raymundo Esteves (escritor figueirense) no seu romance marítimo JOÃO FANÉ - banquista - (1942)

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