quinta-feira, 27 de março de 2014

Miséria!!!





"Os túneis de Lisboa são agora uma casa de família. Uma casa que alberga os sem-abrigo que nada mais podem que não tentar, a todo custo, sobreviver num mundo desigual, num mundo injusto, num mundo feroz que mata em silêncio os homens e mulheres que rejeita. O mundo vai mal. Indiferente. Desapegado. Desinteressado. Quando penso que a morte é medo, concluo que a vida é morte. É a vida, perante tão duras imagens, que nos mata antes do tempo. Não há, não pode haver, justificação possível para a miséria humana que os olhos alcançam e é isso, aqueles corpos tomados pelo abandono, que nos vai assassinando por dentro. Deixar de acreditar num País, num Governo, num Estado, é deixar morrer a esperança, mas olhar aqueles homens e mulheres, sentir-lhes a dor escondida no rosto, é morrer com eles antes de tudo.

Falta ali tudo. Há homens e mulheres a reprimir a fome, a evitar as lágrimas, a suster as saudades de casa, a recordar outros dias, a sucumbir num abismo que se alonga demasiado. Falta ali tudo e, ainda assim, é ali, naqueles túneis, que aqueles homens e mulheres se encontram diariamente para estender um cobertor – quando o há. Nada mais trazem consigo do que aquele cheiro da miséria, da indigência que se abate naqueles túneis, onde dormem para afastar, acima de tudo, o frio que a carne já não suporta. Depois para apartar a solidão que a cor da noite incita. Quantas histórias perdidas encobrem aqueles fétidos cobertores? Quantas vidas se perderam entre um e outro silêncio? Quanta indignação pode aguentar um homem? Não sei. Não sei ao ponto que pode chegar a força de um homem desprovido de tudo e ainda de toda a dignidade. Diante de tudo isto, há, tem de haver, culpados a apurar. Quem zela pelo decoro de uma sociedade se não o seu Governo? Quem protege quem nada pode se não o seu Estado? Quem cuida de evitar, minimizar a pobreza se não o seu País? Pois, certamente, haverá por aqui funções esquecidas, obrigações, deveres descurados e isso, essa amnésia genérica, está a matar toda e qualquer sensibilidade social.

Infelizmente, não tenho poder suficiente para mudar o mundo, curá-lo desta enfermidade viral que nos ataca a todos sem excepção (a uns pior que outros), mas tenho voz, palavras bastantes para denunciar estes crimes horrendos praticados sem que a justiça intervenha. Tenho voz e, enquanto tiver voz, terei a obrigação, como cidadã, de, no mínimo, não me acomodar e calar a tão aterrador cenário. O mundo vai mal, muito mal."
Texto e foto reencaminhados pelo meu Amigo Carlos Reis

1 comentário:

Unknown disse...

Grata caro Aníbal por dar voz e continuação às minhas palavras. Que nunca morram as palavras denunciadoras de tão triste realidade.
Abraço.
Carla Pais.