"O vento do Oeste cruzou a planície em direcção ao mar onde os barcos dos pescadores o aguardavam desde a madrugada, impacientes por alcançarem as águas mais profundas, onde os rabos-de-chá nadavam em cardumes numerosos. A época da desova aproximava-se, anunciada pela chegada do vento fértil, que nascia lá longe, no cume das montanhas geladas.
As éguas que retouçavam sob as nuvens claras eram atingidas no meio das pernas pelo ar em movimento que as inseminava somente com a sua passagen, inoculando-lhes centenas de sementes que os espíritos deixavam no seu caudal quandon ascendiam ao céu após a destruição dos seus corpos.
Deus mostrava o seu sentido de humor produzindo novas formas de vida nas águas e sobre a terra. Despejando os conteúdos das redes nos convés das suas subtis embarcações, mais frágeis do que os barcos dos verdadeiros marinheiros que moravam na vila vizinha perto da praia, os homens chutavam os monstros de cima dos peixes para que não os contaminassem, devolvendo-os ao mar; por vezes, atravessavam-nos com os arpões e competiam para ver quem os lançava mais longe."
In "Os Ossos do Arco-Íris", de David Soares.
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