1 de maio de 2013
A morte de um tipógrafo
Este
era o editorial que nunca gostaríamos de ter escrito. No primeiro de Maio,
quando floresce a Primavera e se comemora o Dia do Trabalhador, data que durante
muitos anos era assinalada como o Dia do Tipógrafo, morreu um figueirense pelo
coração, um beirão de quatro costados, que durante mais de 70 anos foi
tipógrafo e jornalista.
Aníbal
Correia de Matos faleceu no seu Dia, aquele que salientava uma profissão à qual
se devotou com todas as suas forças, desde os 11 anos de idade.
"Vim
para a Figueira da Foz em 20 de Setembro de 1926, exactamente no dia em que a
cidade fazia 64 anos da sua elevação a esta categoria", dizia aquando da
homenagem que o Rotary local lhe prestou. E prosseguia: "A tipografia
então chamada Peninsular e que era propriedade de meu tio Joaquim Gomes de
Almeida, ficava situada na praça então chamada do Comércio, nos n.ºs 17, 18 e
19, e foi aí que eu comecei logo no dia seguinte, a minha profissão de
tipógrafo, com a aprendizagem da caixa, que continha todos os caracteres
necessários à composição, nos respectivos caixotins. Aprendiz num único dia, e
logo no seguinte compus o anúncio que tratava do concurso para o fornecimento
de impressos à Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta".
E são
dele ainda esta palavras: "Uma vida inteira no jornalismo, principalmente
em O Figueirense, a que me entreguei com paixão e com o qual muito me habituei
a sofrer, porque a profissão, embora apaixonante, obrigava a sacrifício (..) E
se outro valimento já não tenho, porque a idade já vai um tanto avançada, a
raiar os 83 anos [faleceu com 88], e a saúde e a vista já são deficientes, foi
porque para mais não tive "engenho e arte", embora a Figueira da Foz
continue a ser a minha grande paixão e o jornalismo continue a animar a minha
vontade e lho demonstrar com a humildade que não posso esconder".
Aquando
do descerramento da placa que dá o seu nome a uma artéria local, em 10 de Junho
de 2001, proferiu, estas sentidas palavras: "O que fiz eu para merecer tal
homenagem? Fiz o que entendi ser o meu dever de cidadão amigo da terra que
adoptou como a sua, e fiz o que todo o figueirense devia fazer por ela. Honrei
a terra onde nasci [Santa Comba Dão] e lutei por esta linda Figueira que me
está fazendo tal festa".
A
Figueira ficou mais pobre. Aníbal Correia de Matos deixou uma obra,
equiparando-se a muitos no que concerne a cidadania em termos de nascimento
físico na Figueira.
Foi
jornalista, foi tipógrafo, profissão a que dedicou grande parte da sua vida, e
fica, desta forma, ligado ao Dia consagrado a essa função.
5.5.2004
.
Editorial publicado no jornal Correio da Figueira, assinalando o falecimento de meu Pai. Completam-se hoje 9 anos sobre a data da sua morte.
AJdeMatos
AJdeMatos

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