Nos 1.º Torneio de Jogos Florais da Figueira da Foz (1941), o escritor e jornalista figueirense, Raimundo Esteves, recebeu, entre outros prémios, a 4.ª menção honrosa com um trabalho intitulado “Figueira de Ontem e de Hoje… O Cortejo de Costumes e “tipos” realizado no dia 3 de Agosto de 1941”
Começo hoje a reproduzir alguns dos temas focados nesse interessante trabalho. Para alguns, serão recordações. Para outros será o conhecimento do que se fez, no passado, nesta cidade à beira-mar plantada.
“Louvável esforço o despendido por esse claro espírito de poeta e de figueirense, que é o Dr. Ernesto Tomé!
De há uns anos a esta banda que os cortejos folclóricos a que tem sabido imprimir um saboroso cunho de originalidade, de visão retrospectiva, de inegável beleza, constituem das mais justamente apreciadas atracções que a Figueira oferece aos seus amigos, aos seus visitantes e aos seus admiradores.
Este ano saiu fora dos moldes anteriores. E facultou-nos uma curiosa passagem de velhas costumeiras, de antigos “tipos”, usos e costumes, numa acertada e pitoresca exibição da vida indígena nos dois séculos passados, em comparação com a que decorre na actualidade.
A cidade encheu-se de forasteiros cobiçosos de admirarem um préstito que se anunciava cheio de interesse e de curiosidades.
Depois, o dia surgiu radioso de sol e de luz, - destes dias rútilos de ofuscante e deslumbradora claridade, como só podem admirar-se em todo o esplendor da sua magnificente beleza, na Figueira da Foz!
Toda a suave e doce manhã, em que o verde do mar foi uma toalha calma sob o dossel azul do mais puro e lavado céu, a praia imensa formigou de gentes. Um aeroplano abriu em voos rasteiros as suas asas como uma libélula doirada à flor das águas. Eram por centenas as barracas alvas, os brancos toldos que se rasgavam como um acampamento bezoante, desde as penedias do Forte de Santa Catarina ao fecho da curva da enseada, junto a Buarcos, onde o casario faulhava. As ruas do Bairro-Novo, impecáveis de aprumo e limpeza, encheram-se de uma multidão ávida em observar um espectáculo inédito. E quando ao redor das cinco da tarde, os primeiros foguetes anunciaram a saída do cortejo, a Rua da Liberdade, na graça bulevardiana das suas árvores roleiras como manjericos, lembrava aquelas tardes entusiásticas de fins de toirada, quando passavam mylords abertas com espanholas moças, erguendo mantilhas coruscantes no topo dos altos pentes, e cavaleiros em trajes de marialvas, - a jaleca curta, a calça justa, o chapéu de aba larga, sombreando rostos atrevidos…”
A descrição dos vários elementos de que se compunha o cortejo prossegue no próximo capítulo…
AJM
1 comentário:
A época descrita por mestre Raimundo Esteves tem o seu quê de bucólico e de melancólico. Cardoso Martha, também ele reconstruiu, com os laivos impressivos das políticas culturais saídas da pena de António Ferro, e do SPN, um novo tipicismo fóclorico para a Figueira Da Foz. Os ranchos foclóricos e os cortejos evocativos pareciam saidos de contos de fadas, que de certo modo ultajavam e escondiam a vida dura de um povo que queriam representar. Visões deformadas que emprestavam, a um povo carecido, um passado, que afinal nunca havia existido. Tudo não passava de cenários montados para esconder a realidade.
Enviar um comentário