Reproduzo, com a devida vénia, do blogue DIVAGAÇÕES, um texto sobre uma figura típica da Figueira da Foz, que ficou conhecida por Visconde de Vila Verde, companheiro e "sócio" do Paulino, ambos a empregar o seu tempo, nos anos 60, como intermediários no aluguer de casas para a estação de veraneio, na Figueira, ambos com "escritório" no Bairro Novo.As duas simpáticas figuras acabaram num lar, tendo já dado a alma ao Criador.
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"Hoje trago-vos uma vetusta figura que marcou a Figueira de há 40 anos atrás: o Visconde de Vila Verde. Era originário de Vila Verde, à altura uma terriola, a alguns quilómetros da Figueira, conhecida pela sua fábrica de vidro.
De origem humilde, passeava-se pela Figueira com um ar altivo. De estatura baixa e com uma magreza acentuada, vestia-se elegantemente, sendo o lenço ao pescoço a sua imagem de marca. Embora as calças e camisa fossem invariavelmente as mesmas, estavam sempre impecavelmente engomadas e os sapatos devidamente engraxados. Deslocava-se como que saltitando, mas sem nunca perder a pose de peralta e um sorriso ligeiramente trocista. Era uma figura simpática e inofensiva que alegrava as ruas do Bairro Novo, especialmente durante a estação balnear.
O visconde ganhava a vida fazendo pequenos serviços para os banhistas endinheirados. No verão, permanecia nas imediações do mercado e, a troco de uma gorjeta, ajudava as empregadas a transportar as compras das patroas para as respectivas residências. Diz-se que tinha alguma saída com as primeiras.
Se existe ou não alguma réstia de verdade na sua pretensa origem nobre nunca chegaremos a saber. Porém, julgo que terá sido talvez esta proximidade com a gente endinheirada durante a estação balnear que lhe deu volta ao miolo e o levou a imaginar-se descendente de um nobre local arruinado, exigindo ser tratado por visconde. Para fazer jus ao nome, passou a ter comportamentos a condizer com a sua nova condição. Um deles consistia em dar duas «passas» no SG gigante, para logo o arremessar violentamente contra o solo, apagando-o de imediato com a biqueira do sapato. Era um verdadeiro visconde, emproado e esbanjador.
Passado o verão, o visconde como que se transmutava, à semelhança da própria Figueira. Sem as gorjetas generosas das clientes endinheiradas, que entretanto tinham regressado às suas terras, sobrevivia como podia da caridade alheia. E era vê-lo, quando se julgava a salvo de qualquer olhar mais indiscreto, a apanhar sorrateiramente do chão as «beatas» dos cigarros. A pose, porém, nunca a perdia.
Para mim, o Visconde de Vila Verde foi sempre a encarnação de uma certa Figueira: alegre, cosmopolita e gastadora, nos meses de verão, e triste, depressiva e provinciana, nos restantes. "