terça-feira, 17 de Abril de 2012

O CATITINHA

Deparámos, agora, com um artigo assinado por Fernando Pinto, publicado no jornal “Diário do Sul”, em 24 de novembro de 2004, dedicado a uma figura de que guardo especiais memórias de infância e que, certamente, muitos figueirenses recordam.
Refiro-me a António Joaquim Ferreira, conhecido entre nós e por esse país fora, por CATITINHA, uma personalidade que percorria as praias de Portugal, com um apito, apertando as mãos às crianças e dando-lhes conselhos no que respeitava à sua segurança.
Os miúdos adoravam-no e sempre que o viam, dele se aproximavam, e o Catitinha, carinhosamente, acolhia-os e, junto deles, deixava-se fotografar.
O Catitinha escondia uma individualidade. Chamava-se, pois, António Joaquim Ferreira, era licenciado em Direito, exercera o notariado e era natural de Torres Vedras, onde nascera a 23 de novembro de 1880.
Recordamo-lo aqui, hoje, reproduzindo parte do citado artigo publicado no Diário do Sul.

O Catitinha e o Dia Mundial da Memória

Quando eu era miúdo, habituei-me a ver e ouvir, sempre que ia à praia, um velho que dava pelo nome de Catitinha. O Catitinha percorria as praias do país de norte a sul. Com um apito, convocava todas as crianças que estavam na praia e, quando à sua volta elas se juntavam, começava a contar histórias que só ele sabia e que todos gostávamos de ouvir. Para vos ser franco, já não consigo lembrar-me de nenhuma das histórias do Catitinha, mas sei que ficava, tal como os outros, maravilhado a ouvi-las. Quando aquele velho de longas barbas e capote conseguia finalmente ficar com a criançada suspensa da sua voz, começava a contar histórias sobre os perigos do mar. Recordava-nos que o mar era perigoso e podia ser traiçoeiro e, na sua bonomia, prevenia-nos contra a demasiada afoiteza e a exagerada confiança com que muitos “tratavam” o mar. Rezava a lenda que ele tinha perdido uma filha ainda criança nas dobras das ondas e que, desde então, se dedicava a prevenir que a mesma desgraça acontecesse aos mais pequenos. Nunca o vi pedir mas também nunca o vi com fome. Pode ser que tudo isso tenha acontecido mas, creio bem que todos lhe tapavam a fome e o frio, porque todos (mesmo mais velhos) já antes o tinham ouvido. O Catitinha era uma instituição, um vulto de avô de todos nós, percorrendo incessantemente as praias do Minho ao Algarve (isso mesmo, ao longo de toda a costa portuguesa há quem se lembre dele) para prevenir desgraças só com ternura e bondade. Ninguém lhe pagava nem ninguém lhe agradecia. Hoje, todos nós temos para com ele uma profunda dívida de gratidão, e eu tenho para mim que o melhor agradecimento era, para ele, o sorriso dos nossos olhos de crianças. E que melhor agradecimento que esse, ele que no mar tinha perdido a sua filha da nossa idade? O Catitinha ensinou-nos muitas coisas, nessa altura sem nome definido, mas a que hoje chamo amor ao próximo, solidariedade, prevenção, segurança, respeito e altruísmo.
Estou em crer que, se hoje existisse, o Catitinha se dedicaria também a contar histórias nos parques infantis e em todos os locais onde há crianças, para as despertar para os imensos perigos que cada vez mais espreitam em cada esquina e em cada bocado de alcatrão. Porque ele foi o primeiro português que conseguiu dar à prevenção de acidentes, um método e um rosto.
Tenho o sonho de promover a figura do Catitinha e acho que, nos tempos que vão correndo, nada se lhe ajustaria melhor que uma fundação que levasse o seu nome e se dedicasse à divulgação entre crianças, de questões de prevenção e segurança nas praias e nas estradas. Acho que ele não se importaria que se incluíssem as estradas porque, no tempo dele, eram as praias que matavam mais gente. As estradas de hoje são as praias de ontem e isso ele iria entender.
Ao antigo e aos novos Catitinhas, a minha mais profunda, sincera e sentida homenagem e agradecimento.”


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