O preço da mentira
A montanha pariu um
rato
Surpresa só para quem
ainda acredita no Pai Natal.
O oportunismo, o
golpismo e outros termos com o ismo como sufixo, podem adaptar-se,
perfeitamente, à sede do poder em política.
Um aforismo popular
reza que “a mentira tem a perna curta”, mas os profissionais da politiqueira
nacional estão-se, como soe dizer-se, marimbando para o que os outros dizem,
desde que os seus propósitos, mesmo que pouco limpos, sejam alcançados.
Tudo isto a propósito
do Orçamento Geral do Estado, que acaba de ser aprovado em conselho de
ministros, com a desfaçatez própria de quem, terminado o período dos beijos e
abraços em campanha eleitoral, sente o grato prazer de sentar-se na cadeira do poder,
mesmo que as promessas, com o colorido próprio do arco-íris, se transformem,
como é o caso, no cinzento próprio dos felinos em passeio noturno.
Costuma dizer-se que o
povo não é estúpido mas, sinceramente, este disfarça muito bem quando acredita
em coisas que, à partida, não contêm a consistência própria dos factos
realizáveis.
E aí estamos perante o
esboroar de prometimentos vazios de lógica, investidos na roupagem de sonhos
irrealizáveis
Como habitualmente no
vocabulário dos políticos, as culpas, para que não pereçam solteiras, são
sempre dos outros, dos que antes ocuparam os postos que estes tomaram de
assalto.
Alegam sempre que não
sabiam a real situação com que agora se deparam, embora as garantias afiançadas
nas campanhas não tivessem em consideração tais dificuldades.
E aí está o aumento de
impostos, com incidência muito particular e peculiar (mas não só) no preço dos
combustíveis que já contêm mais de dois terços das obrigações fiscais.
As caricatas justificações
não se fazem esperar.
E, assim, atribui-se
despudoradamente a responsabilidade das alterações ao despropositado OGE à
Comissão Europeia e, pasme-se, às pressões dos partidos da direita.
O Partido Comunista e o
Bloco de Esquerda, casados com o Partido Socialista para esta escandaleira
política, já colocam reticências na aprovação do documento, que não satisfaz as
suas ávidas e dilatadas pretensões, mostrando claramente que só alinharam com o
seu tradicional inimigo para que quem venceu as eleições não permanecesse na
mais que justificada posse das rédeas da direção do Estado, numa reviravolta
histórica após quatro décadas volvidas sobre a chamada revolução dos cravos.
Costuma dizer-se que as
pessoas têm aquilo que merecem, já que a ingenuidade tem o seu preço e, já
agora, a recente eleição do professor Marcelo Rebelo de Sousa para a
presidência da República, soou como que um rebate na consciência de quem, nas
legislativas, se viu traído nas suas convicções utópicas.
É caso para dizer, a
concluir, que esperem pela pancada, porque esta vai ser forte e muitos vão,
como já se viu, arrepender-se de atitudes inocentemente baseadas em ofertas que
não passavam, como se constata, de presentes envenenados.
Aníbal José de Matos
(Jornalista)
Nota: Publicado, em primeira mão, em